Folha de S. Paulo


Do direito de debochar

SÃO PAULO - "Um ano depois: o assassino continua solto". Foi com esses dizeres acompanhados de uma charge de Deus com uma submetralhadora às costas e as vestes ensanguentadas que o semanário satírico francês "Charlie Hebdo" fez sua edição de homenagem aos mortos no atentado contra o periódico. Religiosos não gostaram, e o sempre combativo Vaticano classificou a capa do "Charlie" como lamentável e desrespeitosa a todas as religiões.

Não pretendo discutir aqui se Deus é responsável pelos atentados cometidos em seu nome. Para chegar a uma conclusão definitiva, seria necessário antes de tudo definir se o tal do Criador de fato existe, o que exigiria mais do que minhas parcas 56 linhas. Contento-me, portanto, com uma questão menos ambiciosa cuja resposta é, pelo menos para mim, cristalina: pode o "Charlie" ou qualquer outra entidade ou pessoa zombar da religião dos outros?

Não hesito nem por um instante em afirmar que uma das maiores virtudes das democracias liberais é assegurar que todas as ideias estejam abertas a escrutínio, incluindo formas menos nobres de crítica como o deboche. Numa democracia liberal, nenhuma ideia, nem mesmo a de democracia liberal, é tão sagrada que não possa ser discutida e eventualmente atacada, desde que a investida fique restrita ao plano intelectual.

Democracias liberais não agem assim por ser moralmente superiores a outras formas de governo, mas porque é prático. Um dos maiores defeitos de fabricação do ser humano, especialmente quando anda em grupos, é levar muito a sério suas ideias. Ao assegurar que tudo possa ser criticado, as democracias criam um mecanismo de autocorreção que, com um pouco de sorte, permite que a sociedade identifique e rejeite as más ideias que circulam por aí.

Um bom exemplo é a noção de que devemos obediência a autoridades religiosas, devaneio que já foi oportunamente rejeitado pelo Ocidente.

helio@uol.com.br


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