Folha de S. Paulo


'Para Sempre Alice'

Quando eu era menino, não se falava em alzheimer. As pessoas idosas "perdiam a cabeça" por causa, dizia-se, da arteriosclerose. Será que era alzheimer?

Estudos recentes mostram que a esclerose no polígono de artérias que suprem o cérebro é um fator facilitador para o mal de Alzheimer. A fronteira entre o mal e as "outras demências" é incerta.

Segundo o site www.alzheimers.org, 5 milhões de norte-americanos com 65 anos ou mais vivem com a doença.

Proporcionalmente, o Brasil deveria ter 3 milhões de pessoas sofrendo de alzheimer. Mas os números, aqui, são incertos: segundo o Instituto Alzheimer Brasil, na ausência de dados seguros, "podemos estimar que 1,2 milhão de pessoas sofram com a doença, cerca de 100 mil novos casos por ano".

Bom, o alzheimer afeta os idosos, e, no Brasil, a vida é mais curta do que nos EUA. Além disso, é provável que, fora dos centros urbanos e nas classes menos favorecidas, o mal seja subdiagnosticado.

Afinal, não existe um marcador do alzheimer; portanto, não há um simples teste que permita diagnosticá-lo claramente (a não ser depois da morte do paciente, na hora da autópsia), e o diagnóstico clínico passa por uma bateria de testes de memória administrados e interpretados, em tese, por um neuropsicólogo.

Seja como for, calcula Drauzio Varella: "Para quem chegou aos 65 anos, o risco futuro de surgir Alzheimer é de 12% a 19% no sexo feminino; e de 6% a 10% nos homens".

Mais um fato: numa minoria de casos (menos de 5%), o Alzheimer se manifesta antes dos 65 anos (às vezes aos 50, aos 40 ou mesmo aos 30). Nesses casos, a doença é genética (e existe um teste para identificar o gene responsável por ela).

Embora medicamentos e condutas possam atrasar sua progressão, o mal de Alzheimer não tem cura. E, envelhecendo, todos espreitam sua aparição com inquietude.

É possível temer o alzheimer mais do que a morte. Imagine uma tortura em que, a cada dia, são recortados alguns pedaços do seu corpo; ao longo desse suplício, continuaríamos sendo nós mesmos, até que perderíamos a consciência e a vida.

Pois bem, a progressão do Alzheimer, recortando memórias, não oferece essa garantia, mas confronta sua vítima com a pergunta incessante: "Quando deixarei de ser eu?".

O paciente de alzheimer é obrigado a filosofar sobre os limites da pessoa humana.

Se não consigo me lembrar de minha vida, se não reconheço mais os rostos ao redor de mim; se, no meio de uma ação, esqueço-me das intenções que a motivaram, o que me permite dizer que eu ainda sou eu?

As brincadeiras sobre os pequenos esquecimentos cotidianos dos idosos mal escondem nosso medo de perder nossa história e a familiaridade de nossos afetos.

Com alguns amigos, aliás, praticamos uma espécie de exorcismo: quando um de nós esquece uma data, as chaves, o celular etc., o outro questiona: qual é mesmo o nome daquele médico alemão?

Quando alguém se pergunta: "quem é esta pessoa que acaba de acordar do meu lado e me faz carinho?", a situação só é engraçada para esconder o horror desse estranhamento.

Circulam piadas sobre as "vantagens" da demência. Se não me lembro do passado e não tenho futuro, o que vai importar, por uma vez, será o meu presente, não é?

Ou ainda: o esquecimento de nossos atos é o sonho de qualquer neurótico –que culpa tenho eu, se não sou o mesmo do ontem? Não seria maravilhoso viver cada experiência como se fosse a primeira vez?

É um bom jeito para não pensar na angústia de quem, parado na padaria da esquina, não reconhece o caminho de casa. Ou de quem se pergunta porque quis tanto telefonar e está agora com o controle remoto da TV na mão.

Lisa Genova é doutora em neurociência pela universidade Harvard, mas sua paixão é a ficção.

No passado, escreveu "Nunca Mais, Rachel" (Nova Fronteira, R$39,90, 287 págs.), que conta a história de uma mulher depois de um acidente cerebral.

E, em 2007, publicou "Still Alice", ou "Para Sempre Alice" (também Nova Fronteira), que conta a história de uma mulher diagnosticada com alzheimer precoce. O livro é hoje um filme, de Richard Glatzer, com Julianne Moore no papel de Alice (que lhe deu o Oscar de melhor atriz em 2015).

O livro e o filme são ambos imperdíveis, porque o "tour de force" de Genova consiste em contar a história na terceira pessoa, mas realmente na perspectiva de Alice.

Graças a ela, enxergamos, por uma vez, uma experiência e um sofrimento com os quais em geral, preferimos brincar.


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